domingo, 6 de março de 2016

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Foi, recentemente, divulgada a intenção do Governo no sentido de criar as condições para que possa ser alargado até às 19h30, num registo facultativo, o período de permanência diária na escola dos alunos que frequentem os segundos e o terceiro ciclos do ensino básico. Por outras palavras, haverá crianças e adolescentes que poderão entrar na escola às 8h30 e sair de lá 11 horas depois. Como acontece com muitos meninos do primeiro ciclo, atualmente. Esta medida, prevista para entrar em vigor até 2019, seria preenchida por atividades de extensão curricular - teatro, música ou desporto, por exemplo - e já mereceu o apoio, de princípio, dos diretores de escolas e das associações de pais (desde que estas atividades sejam, tendencialmente, gratuitas).
 
1.    Compreendo que a ocupação das crianças seja uma preocupação para todos os pais e que, em função dela, a escola possa ser uma resposta. Mas será motivo de sossego podermos ter crianças que passem 55 horas, por semana, na escola?
 
2.   Como pode um país que discute a reposição do horário de trabalho da Função Pública em 35 horas semanais conviver com naturalidade com um "horário de trabalho" de 55h por semana de algumas crianças? Dir-se-á que não é trabalho? Como se aqueles que, por vezes, reagem mal ao casamento entre aprender e brincar achassem que há áreas - que não aquelas que se vão considerando fundamentais para a aprendizagem - que serão lúdicas (mais próximas, portanto, do brincar) e que, portanto, não cansam, não exigem esforço, nem são trabalho.
 
3.   Contando com o caminho de casa para a escola, e vice-versa, haverá crianças que passam 13 horas por dia (mais ou menos) em relação com o seu espaço de trabalho. Se aos adultos são admitidos sintomas de burnout (que se traduzem em exaustão e sentimentos de confusão em relação a si e aos outros) que interferem com toda a sua vida, quando trabalham demais, e se se tem como provado que 55 horas de trabalho por semana aumenta, em relação a eles, o risco de enfarte, porque é que, ainda assim, tantas horas de trabalho e de aprendizagem são saudáveis ou inócuas para as crianças? E porque é que não merecem reservas? E porque é que tem de ser o horário de escola de muitas crianças a adequar-se aos horários de trabalho dos pais e não o contrário? E onde está o empenhamento de todos nós para se encontrarem alternativas (no direito do trabalho relativo aos seus pais, por exemplo)? E porque é que, quando crianças se desligam da escola, não se fala de exaustão mas, antes, surgem, como "sobretaxa", os défices de atenção?
 
4.  Será de esperar de quem passa 11h numa escola mais amor pelo conhecimento, mais sabedoria e melhores resultados escolares ou, pelo contrário, mais "funcionalismo", mais enfado e menos paixão, quando se trata de viver a escola (e tudo aquilo que ela oferece) neste regime aparente de semi-internato?
 
5.    Será que mais escola quererá dizer melhor escola? E que mais informação será, por inerência, mais sabedoria?
 
6.   Será que o mesmo espaço, o mesmo perímetro de regras, os mesmos colegas, os mesmos grupos, os mesmos funcionários trazem mais ganhos ao crescimento das crianças que a oscilação de grupos, de coletividades ou de clubes, de pessoas de referência ou de colegas (nem que, para tanto, a escola funcione como uma "agencia" que, através de protocolos, coloque as crianças em locais e atividades diferentes com a ajuda das autarquias)?
 
7.   E pode uma escola que, nalguns casos, entre aulas de 90 minutos tem recreios de 5, e onde há cada vez mais recreios tutelados pelos pais (para que as crianças não corram, não gritem e não sejam amigas do espalhafato), fazer bem ao deixar que muitas destas 11 horas sejam, quase todas elas, de contenção, contenção e mais contenção?
 
8.  Tenho consciência que as regras de muitas entidades patronais pressupõem que mais tempo no local de trabalho trará melhores desempenhos profissionais (e, portanto, que nem sempre o rendimento no trabalho seja acompanhado por jornadas mais curtas e melhor geridas), o que, já de si, é pouco razoável. Mas será legítimo que se pergunte se é sensato que a vida das crianças reproduza esses erros e se resuma a uma "sanduíche" do género mais escola/pior família. Aliás, imaginando que o caminho da escola até casa se possa estender entre 30 a 60 minutos, e pressupondo que as crianças tenham direito a tomar um banho, de fugida, às 20h30, será que (na melhor das hipóteses!) uma hora diária de família, entre as 21 e as 22 horas, de segunda a sexta, será razoável para que pais e crianças se conheçam, mutuamente, e cresçam uns com os outros?
 
9.    Se, há muito tempo, quando as aulas eram só de manhã, os trabalhos de casa (em forma e tamanho prudentes) poderiam ter todo o sentido, onde passarão eles a caber na vida destes "turbo-alunos"? A seguir ao jantar? E com que mais-valias, afinal? E onde caberia estudar: passear nos livros depois de os passear? Ao fim de semana?
 
10. Por mais que a vida de muitas famílias possa não ser fácil (não é!), será prudente dar à escola mais esta função de "ateliê de tempos livres"?
 
11. E como se pode compreender, neste contexto, o comportamento dos pais? Por um lado, há aqueles que iriam desesperar ao deixar os filhos em "autogestão" ou na rua e, assim, passarão a tê-los protegidos na escola. Por outro, haverá pais que, podendo ter os filhos consigo, irão usar (até à exaustão) estes tempos colocados ao seu dispor. E há, ainda, as crianças que, tendo famílias desmembradas, podem ter na escola a "proteção de menores" que não teriam noutras circunstâncias. Se os primeiros merecem ser protegidos por leis do trabalho mais amigas da família, os segundos mereceriam ser considerados negligentes, retirando-se daí as respetivas consequências. Já o terceiro grupo de crianças precisaria, primeiro, de ser protegido da sua família para que, depois, seja protegido; outra vez. Mas será razoável que nem tudo se pondere quando se trata de "desenhar" uma medida transversal a todas as crianças?
 
12. Não pode uma medida como esta ir em "contramão" com outra gestão mais ponderada dos tempos escolares (de muitas escolas, por exemplo, onde as aulas já terminam às 15h30)? Não pode uma medida como esta acabar por promover mais as discrepâncias e as oportunidades entre crianças desfavorecidas e crianças com recursos económicos, ao contrário daquilo que a bondade da ideia, certamente, consideraria?
 
13. Não é legítimo perguntar se esta resposta, que pode parecer prudente na sua intenção, não estará a tornar os "tempos livres" das crianças num bem em vias de extinção? Não terão os tempos livres de ser livres, por maioria de razão, e não será razoável deixá-los ao bom uso que as crianças entendam fazer deles, sob o olhar atento dos seus pais ou dos seus avós? E onde fica o brincar? Não será ele um património da Humanidade? Não devia, aliás, merecer uma proteção ainda mais empenhada e tão digna como aquelas que o fado, o cante alentejano e tantas outras preciosidades humanas têm vindo a merecer?
 
14. Fique claro, por fim, que este não é um texto contra o Governo. Não é! Aliás, como se viu, esta medida mereceu uma relativa unanimidade de muitos responsáveis. De várias tendências políticas, certamente. E é claro que não pretendo beliscar quem pensa a educação (e que, continuo a achar, devia estar mais, ainda, nos lugares de decisão sobre a escola e as políticas educativas). Mas pensando, unicamente, nas crianças - na sua saúde, no seu desenvolvimento, na relação com a escola, com a família, com as pessoas, com o mundo e com o futuro -, não seria altura de nos perguntarmos todos o que queremos fazer do crescimento delas, encontrando medidas que lhes tragam o imenso privilégio de aprender e, ao mesmo tempo, o "direito constitucional" de serem crianças quando devem ser, trabalhando (todos nós!) de forma empenhada para que esse talento nunca se perca, sempre se acarinhe, sempre se preserve e, para nosso bem, sempre nos interpele?
 
15. Que sentido tem existirem pais que, ao mesmo tempo que reconhecem terem tido uma infância muito mais feliz que a dos seus filhos, não se juntem para mudar o mundo das crianças, na sua relação com a escola? Fará sentido que nos transformemos todos numa "maioria silenciosa" que convive com esta "unanimidade" sem que se encontrem alternativas que acarinhem a escola, aconcheguem os miúdos no teatro, na música e no desporto, por exemplo, mas sem que ninguém se esqueça da importância que os tempos livres e o brincar têm para que o superior interesse das crianças tenha vistas largas?
 
16. Como se podem criar crianças que passam tantas horas dentro do espaço da escola e esperar que elas ponham garra, engenho e paixão nos seus gestos, quando se trata de serem pessoas melhores?
17. Podem crianças cansadas tornar-se pessoas melhores?"
EDUARDO SÁ


extraído de-  http://www.leyaeducacao.com/


quarta-feira, 2 de março de 2016


Manual de instruções para uma criança feliz

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Os bons pais erram! Esganiçam-se, têm “ataques de nervos” e “passam-se”! Tirando os pais que fazem de Dupont e Dupond, e aqueles que nunca se enganam e raramente têm dúvidas, todos os outros são bons pais!

Os pais tão depressa reconhecem que a sua infância terá sido mais livre, mais amiga do brincar, menos atolada em compromissos e mais feliz como, ao mesmo tempo que não fazem tanto como deviam para replicarem essa “fórmula de sucesso”, repetem (de forma exaustiva) que quase tudo seria diferente na relação com os seus filhos se eles nascessem equipados com manuais de instruções. Não serão estes pais escolarizados tentadoramente tecnocráticos? E se ainda hoje guardam a infância como um período feliz, isso deve-se ao bom manual de instruções que os seus pais seguiram a preceito ou ao modo como tiveram tempo para ser crianças, com a ajuda preciosa que isso representa para cicatrizar trapalhadas e engendrar paixão pela vida e engenho para crescer? Seja como for, se a desculpa passa por não haver um “manual de instruções”, vamos lá imaginar um, mais ou menos clandestino, para que não haja mais desculpas...

1. Nunca estamos preparados para ser pais. As crianças dão imenso trabalho. Só crescemos com elas quando somos obrigados a crescer. E nada é fácil para os pais.
2. Nunca se educa só por instinto (materno ou paterno). Mas quando se educa “by de book” todas as crianças se estragam.
3. As crianças precisam de tempo para crescer. E precisam de (muitas) oportunidades para aprenderem a ser crianças!
4. Todas as crianças são inteligentes. E se, hoje, elas parecem mais espertas, é porque os pais, quando os filhos são pequeninos, as estragaram muito menos.
5. Todas as crianças saudáveis são de ideias fixas e são teimosas. A teimosia depende, de forma direta, do modo como elas sentem que o pai ou a mãe ora se zangam, como deviam, ora hesitam e se encolhem, quando se trata de lhes dizer: “Não!”. São, portanto, precisos ritmos, regras e rotinas coerentes e constantes para crescer.
6. Todas as crianças sabem o que querem. Se o não manifestam, e são certinhas, é porque têm medo de contrariar os pais. Já aquelas que parecem ter uma “personalidade forte” estão a transformar-se, contra a vontade de todos, em chefes da família. E isso só lhes faz mal!
7. Todas as crianças precisam de brincar duas horas, todos os dias, depois do jardim de infância ou da escola. Brincar é tempo livre! Tempo gerido por elas, sob o olhar atento de um dos pais ou dos avós.
8. Os brinquedos não têm sexo. Não é a forma como os rapazes brincam com bonecas ou as raparigas com carrinhos que estraga as crianças na sua relação com a identidade. Mas o modo como o pai e a mãe se dão como modelos, com equívocos (levando a que nem sempre apeteça, quando se cresce, ser como eles), ajuda a isso.
9. Todas as crianças precisam de correr, de falar alto, de se mexer e de imaginar. Transformar vídeos, telefones, tablets ou computadores em babysitters, todos os dias e a todas as horas, faz mal à saúde das crianças.
10. Para serem felizes, as crianças precisam de estar tristes. Crianças que podem estar tristes são crianças mais seguras.
11. Sempre que uma criança está triste, os pais estão proibidos de perguntar porque é que ela está assim. Mas se lhe derem um bocadinho de corpo de mãe ou de pai (sem palavras!) a tristeza delas leva a que cresçam melhor.
12. As crianças não crescem felizes à margem da autoridade dos pais. Os pais saudáveis dão com uma mão e exigem com a outra. Não explicam todas as regras nem as justificam, mas exigem em função dos exemplos que dão. Sem nunca falarem demais!
13. As crianças felizes têm nas birras o “último grito” duma “prova de vida”. Significa que têm pais atentos mas que não são nem ameaçadores nem tirânicos. Por mais que uma birra não possa ter muito mais de 10 minutos!
14. Crianças felizes não se transformam em metas curriculares para os seus pais.
15. A família ensina mais que a escola e brincar é tão indispensável como aprender. Logo, crianças que, para além da escola, se desdobram em atividades extra-curriculares e trabalham das oito às oito, crescem infelizes e com pouca amizade pelo conhecimento.
16. Crianças felizes ligam orgulho, esperança e humildade. São valorizadas por aquilo que fazem bem, são corrigidas sempre que se enganam e repreendidas logo que não tentam.
17. As crianças não são o melhor do mundo, para os pais, se as relações amorosas adultas, que eles tiverem, viverem, unicamente, à sombra delas.
18. As crianças precisam de mãe e de pai para crescer. Pais que convivam, mesmo que não coabitem. E ganham se os sentirem, diariamente, atentos e participativos.
19. O pai e a mãe não estão sempre de acordo. E isso torna as crianças mais saudáveis! O desacordo dos pais está para o seu crescimento como o contraditório para o exercício da justiça.
20. As madrastas ou os padrastos, quando os há, nunca são tios! São segundos pais! Devem, portanto, dar colo, exercer a autoridade e promover a autonomia como só os bons pais sabem fazer! 
21. Os avós devem “estragar” as crianças com mimos. Quanto mais os avós interpelam os pais, mais as crianças crescem saudáveis.
22. Os bons pais estão autorizados a não se zangarem um com o outro à frente das crianças! Por mais que isso não adiante quase nada. Na medida em que, por maiores que sejam os seus cuidados, as crianças nunca deixem de sentir se eles estarão ligados um ao outro, amuados ou, até, birrentos. 
23. Os bons pais não se desautorizam um ao outro, diante das crianças. Se bem que elas reconheçam que, sempre que a mãe e o pai discordam, a propósito delas e seja acerca do que for, é impossível que alguém fique indiferente.
24. Os bons pais erram! Esganiçam-se, têm “ataques de nervos” e “passam-se”! Tirando os pais que fazem de Dupont e Dupond, e aqueles que nunca se enganam e raramente têm dúvidas, todos os os outros são bons pais! Sobretudo, quando assumem, com lealdade, que aprendem sempre que se reconhecem num erro.
25. Os bons pais adoram os filhos e adoram estar sem eles! Mas os bons pais não podem viver os seus tempos sequestrados pelos tempos dos filhos. Pais que namoram todos os dias são melhores pais! Pais que confiam os filhos à guarda dos avós ou dos tios, uma vez por mês, ao fim de semana, amam-nos mais!
26. Os bons pais reconhecem que, todos os dias, há 200 minutos, que separam as crianças da felicidade: 30 minutos de filho único de mãe ou de pai, depois da escola; 120 minutos para brincar, todos os dias; 30 minutos para jantar, sem televisão; 20 minutos para namorar com a vida e para contar uma história, antes de adormecer.
27. Crianças felizes gerem cabeça, coração, corpo e alma; pais, irmãos, avós, tios e amigos; escola e brincar. Têm dores, têm medos, têm sonhos e projetos. E tudo isso ao mesmo tempo! Mas não são felizes se precisarem de ser “as melhores do mundo”. Para serem felizes, basta que sejam um bocadinho do melhor que há no mundo para quem só lhes quer bem.

copiado de http://www.paisefilhos.pt/index.php/destaque/8426
Leia mais crónicas do psicólogo Eduardo Sá:

domingo, 28 de fevereiro de 2016


ÀRVORE DOS SENTIMENTOS

para concluir os nossos trabalhos sobre os sentimentos, construímos uma árvore para colocar os nossos corações pintados e colocámos nas folhas o que nos faz feliz na escola















 

árvore dos sentimentos